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Lembranças da Ilha: O Policial/Professor e o sonho utópico de Liberdade

Lembranças da Ilha

O Policial/Professor e o sonho utópico de Liberdade

Certo dia um grande amigo perguntou que por ser tão combativo em ações ilegais de policiais e agentes prisionais, se eu tinha algum Amigo dentro destas respectivas corporações. Respondi prontamente que sim e, fui além, afirmei que em minhas falas em publico, elenco que, se um dia consegui trilhar outro caminho que não fosse do crime, não era pelo Estado, mas apesar do Estado. Contudo, não iria ser leviano e, não reconhecer que, apesar do Estado, existem pessoas que conseguem enxergar o homem por trás de um preso, de um mero infopen, e por isto, destaco o episodio abaixo:

O Professor Policial

Fiquei muito tempo preso em Delegacias, pois era a Policia Civil que tinha a incumbência de guarda de preso em Minas Gerais até o ano de 2003.  A cadeia nunca será um ambiente agradável, entretanto quando comecei a cumprir pena, os depósitos de gente denominados cadeia publicas eram (e ainda são) a sucursal do inferno na terra.  Já fiquei preso em uma cela de 4X4 m² com 44 pessoas, onde tinha apenas um cano de agua no canto da parede para ser usado de banheiro, lavatório e chuveiro e etc, e um buraco no chão para servir de latrina, não tinha ventilação, sol...  as surras, maus tratos eram nossa rotina diária.

Foi neste ambiente hostil que encontrei (o hoje amigo) Sr. Jair, um homem de meia idade, que já estava para aposentar como policial e, que por maior dicotomia, era também Professor do ensino fundamental. Sr. Jair odiava a policia e nutria amor ao oficio de Professor. E é em relação a este cidadão, que levava em todos os seus plantões livros e sempre me retirava da cela, sem escolta e sem algemas, mesmo eu tendo mais de 20 anos de sentença para cumprir.

Nestes momentos que me retirava daquela feia cela, que conseguia respirar um pouco de liberdade, falávamos de historia, politica e justiça... Aprendi muito, dividi sonhos, e nesta época já fazia as minhas “cartas” “petições” aos juízes pleiteando direitos de meus companheiros.

Em certo final de ano, por estar em uma carceragem que também era casa de albergado, onde quase todos os  presos estavam em regime prisional aberto e semiaberto e, na totalidade, não tinham o beneficio de visitação a família, eu e o Professor Jair resolvemos fazer uma ação que ele mesmo propôs:

“Greg, vamos pedir ao Juiz para que os presos que têm direito possam passar as festividades natalinas em casa com a família, vc faz a “petição”, eu digito em minha casa e vc pede para os mesmos assinarem” (tendo em vista que não era Advogado, mas o preso na execução pode “peticionar” em causa própria).

Assim foi feito, naquele ano colocamos na rua 25 pessoas, em um total de 33 pessoas, e somente não pôde ir passar o natal em casa àqueles que ainda não tinham direito e, entre estes 8, que ficaram: eu...

Por uma coincidência do destino, no dia do natal daquele ano, era meu Amigo Jair no plantão, que fez questão de dividir a ceia que a esposa preparou para o mesmo, comigo, fez questão de comprar uma cerveja, que saboreamos a meia noite jubilosos com o nosso feito....

Aquele preso escrevinhador e o Policial Professor passou aquela noite de natal jogando conversa fora, e falando de sonhos e liberdade.

Salve, Salve Sr. Jair! 

Greg Andrade, 25 de setembro de 2017.