PUBLICAÇÕES E NOTÍCIAS

Lembranças da ilha - No meio do caminho eu olhei para trás ...

A Caixa

Hoje por ser Domingo e com o escritório vazio, resolvi me aventurar em nossa sala de arquivo, lá encontrei uma caixa preta de plástico, destas que são vendidas em lojas populares de artigos para casa.
Os olhos marejaram e o coração bateu descompassado devido as lembranças...
Em uma época não muito distante, estava em uma situação financeira de penúria completa, tinha me graduado, tinha uma serie de especializações, era sempre convidado a ministrar palestras, militava e muito na seara social e em questões relacionadas a Direitos Humanos, sobretudo para a população carcerária.
Por esta militância política, advindo o fato de ser egresso do sistema prisional, as portas de empregos formais nunca foram abertas, inclusive em entidades que propagam a luta por Direitos Humanos (a mão até treme de vontade de nomear uma a uma), há nesta País um discurso para dentro e outro para fora em relação a Direitos Humanos no sistema prisional, com o senso comum ditando o famoso jargão: “Direitos Humanos para seres humanos Direitos”, ou “direitos dos manos”, entidades e ONG’s se afastam do tema, dando preferência em tocar em outros assuntos mais palatáveis , e como muitas delas são fartamente financiadas com projetos de Governos, a maioria querem distancia de pessoas como eu, atola o dedo na ferida e torce...
Mas voltemos a caixa que me emocionou, como já relatei, estava em uma época de “vacas magras”, onde não tenho vergonha em externar que não era raro não ter dinheiro para um lanche, ou pagar um ônibus...
Com muita luta consegui poder ser inscrito nos quadros da OAB/MG, e não por vontade desta, pois para negar a minha inscrição como estagiário, suscitaram uma “indignidade” por estar em cumprimento de sentença, mas fato é, que tiveram que me engolir com casca e tudo, pois encontrei um dispositivo na lei que obrigava a minha reabilitação criminal e consequentemente a minha inscrição não como estagiário, mas como profissional, como Advogado já que tinha sambado na prova da OAB...
Com a OAB não mão, pensei: E agora? Que faço eu com isto? Passei minha graduação e meu retorno em liberdade sempre pensando em trabalhar na área social, NUNCA quis advogar, para que isto serve?
No entanto, as pessoas, sobretudo os familiares egresso (as) e presos (as) ficaram de alguma forma sabendo que já era “Dotô” e as demandas começaram a “chover”...
Esta caixa muito me emociona já foi o primeiro arquivo que improvisei (já disse que estava dando beliscão em tartaruga por dinheiro...), fui em uma loja popular, comprei esta caixa, fui em uma loja de parafusos e comprei as hastes, e eu mesmo montei este arquivo... De uma caixa passou para outra, mais outra e mais outra, até hoje ter uma sala somente para arquivos...
Esta caixa sempre estará ao meu lado, para lembrar sempre que Deus é bom, que ainda que estejamos no fundo do poço, sempre poderemos dar a volta por cima...
Tenho absoluta certeza que meu Pai ficaria orgulhoso desta caixa....

Greg Andrade, Verão de 2018.